NOSSO MUNDO, NOSSA ÁGUA, NOSSA CHANCE:
DE OLHO NO MAR – PESQUISA E CONSERVAÇÃO DO GOLFINHO-FLÍPER NO ARQUIPÉLAGO DAS CAGARRAS

FIGURA 1 - O nome do arquipélago deriva do guano (fezes de aves marinhas) que recobriam os costões rochosos das ilhas de forma intensa, sendo uma alusão a rica avifauna existente na época dos colonizadores portugueses que as batizaram de “Ilhas Cagadas”.

Foto: Luiz Cláudio Mayerhofer

Especialistas irão levantar informações que visam auxiliar a determinação de diretrizes para a conservação dos mamíferos marinhos do arquipélago.

Por: Liliane Lodi. Projeto Golfinhos/Instituto ECOMAMA.

O arquipélago das Cagarras (23º02’S ; 43º12’W), distante 5 km ao sul da praia de Ipanema, é formado por três ilhas principais - Cagarras, Palmas e Comprida, duas ilhotas e duas lajes - caracterizando-se por ser um sistema insular próximo a um grande centro urbano que é a cidade do Rio de Janeiro. O arquipélago concentra uma rica fauna marinha mas são escassas as informações a respeito da composição, biologia, ecologia e estrutura das comunidades dos organismos que habitam esse ecossistema (Fig 1).

O acesso às Cagarras é relativamente rápido através de uma embarcação, o que potencializa o uso humano de seus recursos. O arquipélago sofre com as pressões da degradação ambiental tais como poluição (proveniente do esgoto oriundo do continente que contamina a massa d’água que atinge as ilhas), lixo flutuante, sobrepesca e pesca predatória, caça submarina com compressores; coleta de organismos recifais para fins ornamentais e com o turismo desordenado, sem nenhum tipo de controle ou fiscalização ambiental (Fig. 2).

Figura 2 - A proteção de ambientes costeiros e marinhos têm sido bastante discutida em todo o mundo, porém o estabelecimento dos critérios de uso e de formas de manejo ainda são escassos e falhos, devido a dificuldade de fiscalização; a falácia de que o meio marinho é uma propriedade de acesso comum e disponível para todo tipo de exploração e a idéia de que seus recursos são infinitos. Foto: Luiz Cláudio Mayerhofer


Em agosto de 2004, foi iniciado um estudo, que terá um ano de duração, objetivando elaborar o catálogo de golfinhos-flíper (Tursiops truncatus) identificados individualmente no arquipélago das Cagarras, que servirá de base para estudos de estimativa populacional, bio-ecologia e comportamento, gerando informações que subsidiarão à proposição de medidas adequadas que permitirão o manejo e à conservação da espécie em seu ambiente natural. A vídeo-identificação utilizando filmadora digital (VídeoD – ID) é uma nova técnica de marcação/recaptura (com uma maior viabilidade financeira) que vem auxiliando o estudo dos cetáceos em seu ambiente natural, sem interferir de forma danosa no comportamento dos animais.
A ampla distribuição dos golfinhos-flíper faz com que esse cetáceo seja particularmente suscetível aos impactos das atividades antrópicas na zona costeira e à degradação de seus hábitats. T. truncatus é considerada como uma das principais espécies sob forte pressão antrópica na costa brasileira, de acordo com o Plano de Ação para Mamíferos Aquáticos do Brasil, Versão II (IBAMA, 2001) (Fig. 3).

FIGURA 3: O golfinho-flíper apresenta uma ampla distribuição geográfica ocorrendo em águas tropicais, subtropicais e temperadas de todos os oceanos. No Brasil, distribui-se desde o Rio Grande do Sul ao Ceará, incluindo também o Amapá e os penedos de São Pedro e São Paulo. Foto: Luiz Cláudio Mayerhofer

Mortalidades acidentais em redes de espera e em espinhéis de superfície, a crescente degradação do ambiente costeiro, a poluição, o intenso tráfego de embarcações e a exploração excessiva de recursos marinhos, importantes na dieta da espécie, constituem ameaças potenciais à sua conservação.
A localização geográfica do arquipélago, além da constante influência antrópica pelo uso recreacional e pela proximidade com a costa, conferem a esse ecossistema importância singular entre outros ecossistemas costeiros da região sudeste. O golfinho-flíper deve ser considerado como um dos principais integrantes da zona marinha costeira para propósitos de manejo e gestão. Dentre as espécies que compõem a fauna marinha do arquipélago das Cagarras, o golfinho-flíper está incluído no topo da cadeia alimentar aquática.

Apesar da grande importância ambiental, científica e econômica do local, ainda não há estudos que mostrem o nível da influência antrópica na biodiversidade marinha, como por exemplo com os golfinhos-flíper, cujos aspectos populacionais, comportamentais e ecológicos são ignorados, apesar dessa população interagir regularmente com as atividades humanas desenvolvidas no arquipélago. A falta de estudos anteriores sobre o golfinho-flíper no arquipélago das Cagarras confere grande relevância a este estudo.
O golfinho-flíper permanece ainda um dos delfinídeos menos conhecidos. Por falta de informações adequadas, T. truncatus encontra-se relacionado na categoria “Dados Deficientes” da Lista Vermelha de Animais Ameaçados da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN, 2003) e no Plano de Ação para Mamíferos Aquáticos do Brasil, Versão II (IBAMA, 2001).
O presente projeto está sendo desenvolvido pela equipe do Projeto Golfinhos, com o apoio institucional das Faculdades Integradas Maria Thereza, do Instituto ECOMAMA e da operadora Tempo de Fundo Atividades Subaquáticas e conta com apoio financeiro parcial da Fundação Project A.W.A.R.E.

FIGURA 4 - Nada melhor do que os golfinhos - símbolo do emblema da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro - para chamar a atenção da população sobre a necessidade de proteger esse importante ecossistema marinho costeiro. Foto: Luiz Cláudio Mayerhofer


A Fundação de utilidade pública e sem fins lucrativos Project A.W.A.R.E. - resultado das iniciais dos conceitos Aquatic World Awareness (Consciência do Mundo Aquático), Responsibility (Responsabilidade) e Education (Educação), foi constituída em 1992 pela Professional Association of Diving Instructors/ PADI (Associação de Instrutores de Mergulho Profissionais). A Fundação é mantida por doações e pela venda de produtos A.W.A.R.E. Os fundos obtidos são destinados para seguintes atividades: desenvolvimento de projetos e programas e campanhas que despertam a consciência individual e comunitária responsável sobre o nosso ambiente global.

De uma maneira geral, os principais beneficiários com o presente estudo serão os moradores da cidade do Rio de Janeiro e todos aqueles que usufruem direta ou indiretamente das ilhas do arquipélago, já que a partir de dados mais precisos acerca da bio-ecologia dos golfinhos-flíper será possível estabelecer políticas corretas de uso e ações incisivas de monitoramento e conservação do arquipélago das Cagarras. Além disso, os especialistas da vida marinha, mergulhadores, ambientalistas e estudantes, terão um bom instrumento prático para a identificação e compreensão da biodiversidade marinha da região sudeste (Fig. 4).

Os resultados obtidos neste estudo servirão de base para a elaboração normas visando garantir a conservação do golfinho-flíper no arquipélago das Cagarras, as quais serão encaminhadas para as autoridades competentes para serem formalizadas e, também, para todos os meios de divulgação cabíveis (como publicações de divulgação científica e/ou a mídia local) para que sejam amplamente divulgados.
As gerações futuras podem não vir a herdar os prósperos e florescentes recursos aquáticos se nós não agirmos agora. É necessário portanto, promover ações que visem o estudo, a educação e a conservação da fauna e dos ecossistemas marinhos costeiros brasileiros.

http://www.projetogolfinhos.com.br
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Ultima actualización: 09/10/2004